Ésteno e a Perversão Social- Mito e Marginalidade
Lembrando o mito de Medusa, não podemos esquecer que esta é uma das três górgonas, seres apavorantes, cujo único objetivo era destruir a humanidade. Lembremos o historiador:
"Três irmãs, três monstros, a cabeça aureolada de serpentes venenosas, presas de javalis, mãos de bronze, asas de ouro: Medusa, Ésteno e Euríale. São símbolos do inimigo que se tem que combater. As deformações da psiqué, consoante Chevalier e Gheebrant(Dictionnaire des Symboles, Paris; Robert Laffont, Júpiter, 1982). Mas qual a importância do mito para o trabalho analítico?
"Mircea Eliade viu a solução do problema, como não poderia deixar de ser , no afastamento do herói para o illud tempus, para o tempo das origens: "Todos esses traços ambivalentes e monstruosos, esses comportamentos aberrantes, evocam a fluidez do tempo da "origens", quando o mundo dos homens ainda não havia sido criado. Nessa época primordial, as irregularidades e os abusos de toda espécie (isto é, tudo aquilo que será denunciado mais tarde como monstruosidade, pecado ou crime) suscitam, direta ou indiretamente, a obra criadora. No entanto, é em conseqüência das suas criações instituições, leis, técnicas, artes que surge o mundo dos homens", onde as infrações e os excessos serão proibidos. Depois dos heróis, no "mundo dos homens", o tempo criador, o illud tempus dos mitos , está definitivamente encerrado. ( Mitologia Grega , Brandão,1987,vol III, pg. 67 ) E Prossegue:
"Pois bem, foi naquele tempo qualitativamente diverso do tempo profano, que surgiu mediante a ação de seres extraordinários, a grande transformação das coisas, a qual acabou por lhes outorgar o estado atual. É mister, todavia, acentuar , mais uma vez, que, tudo quanto existe possui suas raízes naquele mundo ambivalente dos começos, um mundo integralmente diferente do atual. Eis o motivo por que, no tempo presente, para consolidar, vex por outra , a ordem permanente, ameaçada pelo desgaste do tempo profano, é preciso recorrer ao "tempo do mito" reatualizando o com toda a sua desordem primordial, para fazer ressurgir do mesmo, e de novo, a ordem permanente. Donde se conclui que a ambivalência do "tempo do mito", condição da ordem e fonte de sua sacralidade, "mas simultaneamente, desordem, o reverso da ordem atual ( no bem ou no mal, paradisíaco ou monstruoso, se não ambos ao mesmo tempo), é um estado de imperfeição, um estado simplesmente não humano. Pois bem, as personagens que agem nessa ambivalência são igualmente monstruosas e imperfeitas, mas se constituem simultaneamente nos agentes sobre humanos da transformação criadora de que surge a ordem atual". ( Brandão,1987 , pg.68).
Não fosse o autor um historiador, poderia se pensar no tempo mítico, como o tempo do caos, da desordem, das fantasias monstruosas, um tempo do inconsciente. Quando esse caos e esse tempo ultrapassam as fronteiras da ordem, ameaçando o mundo humano, é necessário reviver este tempo, lidar com suas ameaças e seus heróis,; com seus seres monstruosos e seus deuses. Um tempo onde só havia o Id. Um tempo onde "no principio era o caos..." Onde não havia o Verbo, um tempo pré verbal. Sem palavras, sem ordem.
Joseph L. Henderson citado por Jung , afirma que "não obstante terem sido desenvolvidos por grupos ou indivíduos comprovadamente sem nenhum contato, todos esses mitos possuem um modelo universal, vale dizer todos têm por infra estrutura um arquétipo. "Tal modelo, afirma o psiquiatra em pauta, possui significado psicológico tanto para o indivíduo como para toda uma sociedade, que tem uma necessidade análoga de estabelecer a identidade coletiva". ( Brandão,1987 pg.70).
A partir do que foi escrito, é possível falar das três górgonas, como aspectos apavorantes do psiquismo, que uma vez trazidos à consciência podem instalar o caos, seja no social, seja no indivíduo.
Em trabalho anterior, quando utilizamos o mito de Medusa como modelo para explicar a perversão do afeto materno, como o modelo de mãe insuficiente para desenvolver em seus filhos uma imagem de si positiva, equilibrada e afetiva; um espelho distorcido, cuja imagem monstruosa paralisa ou transforma seres humanos em monstros, foi-nos possível estabelecer esta ligação entre o tempo mítico e o tempo real no inconsciente. Para vencer Medusa é preciso despertar o herói, arma-lo, ensina-lo, materna-lo no processo terapêutico, para que ele possa entrar na caverna do inconsciente, enfrentar o caos, a desordem de um tempo que já não existe, mas que se manifesta no presente, no caos, como se fora atual. Medusa é mortal, a única das três que pode morrer. Para que se instale a ordem individual é preciso mata-la no tempo mítico. Mas e Ésteno, o que significaria o seu mito no inconsciente?
Ésteno, como suas irmãs é apavorante (górgona), possui as mesmas características, no entanto não é mortal como Medusa. Talvez por isso seja mais perigosa. Representa a perversão social,, a hibrys ( no sentido de distorção, de insolência, de desobediência a lei estabelecida). A ausência da culpa, o bizarro, enfim, "tudo aquilo que será denunciado mais tarde como pecado ou crime".
Para Winnicott, "aqueles aos quais falta um senso moral não tiveram nos estágios iniciais do seu desenvolvimento a situação emocional e física que lhes teria possibilitado desenvolver uma capacidade para o sentimento de culpa". (O Ambiente e os Processos de Maturação; pg.28 1979).
Logo, com base no mito e em Winnicott, Ésteno é a continuação do trabalho de Medusa, no sentido de uma mãe que não provê ao seu filho uma imagem de si positiva, que não reflete nos cuidados e no afeto que lhe dedica nada mais que sua própria monstruosidade, será incapaz de desenvolver nesse filho a capacidade para eclodir o sentimento de culpa necessário para que se instale a lei e a ordem. É a partir de Medusa, de um tempo "mítico" de desafeto, onde a criança se sente monstro, apenas por refletir o monstro que é a mãe, que se instala o "tempo de Ésteno".
Para Winnicott, " ...em circunstâncias favoráveis, a capacidade do sentimento de culpa se constrói no indivíduo com respeito à sua mãe, e isso está intimamente relacionado com a oportunidade de reparação. Quando se estabelece a capacidade de preocupação, o indivíduo começa a se situar na posição de experimentar o Complexo de Édipo, e de tolerar a ambivalência que é inerente ao estágio posteriores que a criança, se madura, está envolvida em relacionamentos triangulares entre pessoas humanas plenamente desenvolvidas. Neste contexto não faço mais do que reconhecer o fato de que algumas pessoas, ou em parte delas, há um impedimento do desenvolvimento emocional nas fases iniciais, e consequentemente uma ausência de senso moral. Onde há uma falta de senso moral pessoal o código moral inculcado se torna necessário, mas a socialização resultante é instável." (destaques meus Idem obra acima).
Por estas razões, vejo Ésteno, a perversão social, apenas como uma atualização do esforço de Medusa em produzir seus filhos monstros. Ou ainda uma continuação ou reedição de Medusa no inconsciente.
É comum encontrarmos em certas personalidades ou estruturas depressivas uma certa tendência anti-social, e muitas vezes uma tendência a atos perversos. Tenho observado pessoas que praticam atos de vandalismo, ou de crueldade, simplesmente para poder sentir culpa. Em alguns casos, encontrei pessoas que em estado depressivo, tendiam a pratica da infidelidade conjugal, ou a prática de ato com pessoas do mesmo sexo, simplesmente porque era isto o que poderia faze-los sentirem-se maus e perversos. Para este trabalho, prefiro separar o que chamarei de o domínio de Ésteno, nos atos ligados ao social ( corrupção, perversão da lei, marginalidade, crime, etc.) do que chamarei do domínio de Euríale ( perversões sexuais nos seus mais diversos aspectos), no entanto, esclarecendo que tanto Ésteno como Euríale são projeções de Medusa.
Como Winnicott faz questão de esclarecer, é preciso separar mesmo que a grosso modo o comportamento anti-social em dois tipos: um é a rebeldia comum à criança, principalmente no que concerne ao seu processo de contestação para a individuação. Ou seja, é preciso negar o modelo parental para poder construir algo próprio. Como alguém que derruba completamente uma velha casa para construir com seu projeto, segundo suas necessidades. O outro no entanto, tem a função de gerar mais sentimento de culpa. Vejamos Winnicott:
"A criança ou o adulto, não podem chegar à origem de um sentimento de culpa que é intolerável, e o fato desse sentimento não poder ser explicado origina uma sensação de loucura. A pessoa anti-social consegue alívio ao divisar um crime limitado que está apenas de modo disfarçado na natureza do crime , na fantasia reprimida que faz parte do Complexo de Édipo original. Isto é o mais próximo que uma pessoa anti-social pode chegar da ambivalência que faz parte do Complexo de Édipo. No início o crime substituto ou delinqüência não é satisfatório para o delinqüente, mas quando repetido compulsivamente ele adquire características de ganho secundário e assim se torna aceitável para o self da pessoa. Nosso tratamento se torna mais efetivo quando podemos aplica-lo antes que os ganhos secundários se tornem importantes. Nesta, a variante mais comum de comportamento, anti-social não é tanto a culpa que é reprimida como a fantasia que explica a culpa." (Winnicott, 1979).
Ao refletir sobre as idéias de Winnicott, tentando aplicar a atual conjuntura social do Brasil, a sensação que se tem é de desesperança. Como prover crianças de mães suficientemente boas ? Quando sabemos que por conta da miséria, da loucura, muitas alugam seus filhos para a prostituição e a mendicância. Mas se esta insuficiência parental se desse apenas no âmbito dos miseráveis, as delegacias não estariam cheias de ocorrências criminais de pessoas de classe média e alta. Então parece que o problema não é somente a miséria. Esta é apenas um dos problemas da falta de educação e saúde, do desenvolvimento de uma noção de si mesmo mais saudável, onde as pessoas não tem que esperar por soluções que venham do outro, decretando a própria insuficiência. Estabelecendo que o poder vem do poderoso e não do povo, como estabelece o princípio democrático. Poder este que também pertence ao "tempo de Ésteno". Criam-se redes de corruptos e corruptores.
Como vimos no início, segundo Winnicott, é preciso desenvolver o sentimento de culpa, para preocupar-se com o outro e aprender a reparar o mal causado, o que nos leva inclusive a noção de percepção do mal, como mal.
Enquanto o chamado Mal vinha dos miseráveis, a sociedade podia descarregar sua culpa na idéia da inveja, que o miserável teria do poderoso, o que de certa forma "justificava" a violência, pois a diferenciação entre o Eu e Tu poderia se fazer apenas pelo Ter, o que de certa forma (e digo de forma perversa) poderíamos nos proteger atras de grades, portas de segurança, alarmes e cães. Criamos assim uma geração isolada, de poderosos protegidos e miseráveis espoliados. Mas até ai, eles estavam lá, em suas favelas imundas, sem o mínimo de assistência, sem educação, sem noção de ser, pois o mais importante era o Ter. Nunca a cidadania e com ela a auto estima e a noção de si mesmo estiveram tão ameaçadas. A solidariedade como sentimento de responsabilidade pelo outro passa a ser encarada como pieguice por uns ou assistencialismo por outro ( e muitas vezes o próprio sistema se utiliza do dar para receber) criando assim ilhas de dependência que nada mais fazem do que alimentar o sentimento invalidez, de tal forma que o que deveria ser um cidadão, consciente dos seus direitos e deveres passa a ser um inválido, dependente do poder e temendo seus instrumentos de controle e defesa ( a polícia e a justiça, o médico que atende no posto de saúde), criando assim a idéia de que não pode reclamar dos serviços públicos , dos desmandos do poder pelo simples fato de não Ter, e sendo assim não pode ser e exercer.
No âmbito do social, mais do que nunca a hybris se realiza. A distorção se faz. O que deveria ser usado para educar, libertar, alimentar e reconhecer o poder da cidadania, acaba em mãos perversas, que negam a educação para favorecer a ignorância; esta gera a dependência, a fome, a incapacidade que por sua vez sem esperanças de cidadania, embarca na corrupção. Aprende-se a ter "padrinhos" quando se deveria exigir o cumprimento da lei, oferecendo capacitação e oportunidade para todos, e os que não conseguem, distanciados daquilo que seria o respeito ao outro, pelo respeito a si mesmo, perdendo "a si mesmo" perdem a noção do outro e instala-se a violência, de uma vez que todos acreditam serem impunes, pois a lei, que deveria ser paterna, tem em seus representantes, "pais corruptos", que crêem- se acima da lei, que geram novos filhos, e mais corrupção. Eis a hybris em toda sua força.
Como diz Winnicott, é preciso que o criminoso não descubra os ganhos secundários do crime, ( será que o crime realmente não compensa ?) num contexto social dominado pelo "tempo de Ésteno". Como prevenir então?
Educação, trabalho, estímulo à dignidade, menos propaganda da violência, mais estímulo aos profissionais de educação, saúde e assistência social. Mais trabalho de prevenção. Uma idéia muito antiga: "Educai as crianças e não será necessário punir os homens"- como escreveu Rui Barbosa.
O perverso, o corrupto, o marginal algumas vezes consegue escapar das malhas da lei a quem desafia e da justiça a qual tenta corromper. Isto cria no ambiente social a idéia da impunidade, o que leva a um descrédito coletivo na lei e na justiça, e até a tentativas de fazer justiça com as próprias mãos; cada um de nós que nos sentimos privados do exercício da cidadania e da auto-estima . É outro artifício de Ésteno.: atrair para o "seu tempo", sua caverna, aqueles a quem ela mesma espoliou. Tentando combater Ésteno, muitas vezes corremos o risco de nos aliarmos a ela pela desesperança que se instala em cada um de nós e nas instituições. Até nelas, Ésteno pode predominar, no momento em que os objetivos pessoais aliados a fragilidade humana, colocam-se acima dos objetivos sociais, e por sua vez acima da lei..
O que estes "filhos de Ésteno não sabem, é que trazem dentro de si a monstruosidade da mãe perversa. E esta monstruosidade os destruirá, mais cedo ou mais tarde. Seja colocando-os ao alcance da lei, ou desenvolvendo doenças degenerativas, que mais tarde consumirá os recursos espoliados da sociedade. Nem todos terão um pai/deus como Poseidon que consegue gerar mesmo com uma mãe/monstro o grande caçador Orion.
Os filhos de Ésteno, vivem à margem do social, em um tempo mítico, o tempo do caos. Carregam dentro de si as deformidades das Górgonas e mais cedo ou mais tarde, dentro do tempo mítico, na caverna do inconsciente, alguém destruirá os monstros, e quando isto acontecer, estas os levarão junto e o destruirão. Mais uma vez se encerrará o "tempo mítico", o caos se detém e a lei se instala.
Fugir da lei para o perverso é apenas uma forma infinitamente dolorosa de descobrir que a lei existe, que muitas vezes pode ser distorcida, ser corrompida ( pelo menos aparentemente, e no tempo mítico), mas , jamais será destruída, pois Minerva ( a deusa da Inteligência) sempre armará Perseu e o espelho sempre existirá, mesmo que na figura do Psicanalista, numa guerra de deuses, trabalhando nos mitos pessoais de cada um.
O "tempo de Ésteno" precisa acabar, e isto só é possível numa pátria-mãe menos Medusa, que gera filhos- monstro, mulheres e homens irresponsáveis de sua paternidade, criando mais monstros, mais medusas, mais Éstenos. É preciso que a pátria seja mãe, que os governantes sejam pais, para com seus exemplos construírem cidadãos, pois da casa de pais bandidos, jamais sairão legisladores honestos. Será assim, ou então Ésteno estabelece o seu domínio e a violência, a perversão e o crime tomará conta de tudo, desde os barracos até os palácios, ninguém pode escapar de Ésteno, embora ela sempre fuja da lei voando com suas asas de ouro.
Marise de Souza Morais e Silva Santos
13 de março de 1998.