Euríale, última das górgonas, mais um dos seres cujo único objetivo é destruir a humanidade, irmã de Medusa (vista anteriormente como perversão do afeto materno), e de Ésteno (vista como a perversão social) é ao nosso ver, como a segunda, apenas uma projeção de Medusa, sendo por esta razão que ambas se apresentam como imortais. Para destruir as três irmãs é preciso que se destrua a górgona que é mortal. Embora o mito não relate, em nosso trabalho anterior sugerimos ser Medusa, o símbolo da mãe insuficiente, da mãe que priva seu filho do afeto criando uma insuficiência que o faz permanecer na dependência desta, alimentando a fantasia de sempre haverá algo que ele poderá fazer para satisfazê-la e em troca obter o afeto de que tanto precisa para crescer emocionalmente. Mesmo que de forma simbólica, penso que podemos sustentar no mito de Medusa o triângulo amoroso edípico, no qual temos uma filha extremamente bela ( que atrai o pai perverso, incestuoso) e que para humilhar as mulheres, viola a própria filha, no templo (leito) da mãe, desafiando assim a ira da deusa Minerva, que pôr sua vez para não deslocar sua ira para o marido, resolve castigar a vítima do assédio de Zeus. Neste processo edípico invertido, ( e digo-o porque pode-se observar que o amor do deus-pai por uma mortal (filha), já desloca para uma condição inversa o que deveria ser a posição edípica, na qual o bebê fantasia o idílio com a figura parental do sexo oposto, e na qual onde o outro ( parte do casal) deve intervir. Violada, agredida e por fim castigada injustamente, Medusa simboliza a mulher vilipendiada, que odeia os homens (por ter sofrido agressão sexual e ver seus afetos e fantasias destruídos) e que passa a tomar como parâmetro de masculinidade o "pai" agressor. Sua projeção, Euríale, seria a junção de Medusa com Ésteno, a perversão social, vista como a insuficiência do Poder Social que deveria proteger seus filhos, mas que cada vez mais os expropria, para depois "vender direitos" que nada mais são do que a cidadania que deveria ser reconhecida, por "pais" perversos que corrompem os poderes e a lei, que deveria funcionar em prol deste reconhecimento. Do ponto de vista simbólico, Euríale representa para nós a junção da mãe insuficiente, com a sociedade insuficiente e corrompida, que repetindo a insuficiência da mãe desprotege seus filhos e utiliza a lei para ameaçá-los, criando marginalidade e desespero, empurrando pessoas para uma marginalidade quase que forçada. Esta conjunção daria origem a uma estrutura (no sentido usado por Claude Lévi–Strauss) de um conjunto de relações originando formas de funcionamento, que mudam segundo a reorganização destas mesmas relações, ou novos acréscimos) que poderíamos chamar de perversa, seja no aspecto pessoal ou social. Para Laplanche e Pontalis (1973) pode-se definir Perversão como: "Desvio do ato sexual normal quando este é definido como sendo o coito com uma pessoa do sexo oposto, dirigido à consecução do orgasmo mediante penetração genital. Diz-se haver perversão: onde o orgasmo é alcançado com outros objetos sexuais (homossexualidade, pedofilia, bestialismo, etc.) ou através de outras regiões do corpo (coito anal, etc.) onde o orgasmo acha-se totalmente subordinado a certas condições extrínsecas, que podem mesmo ser suficientes, em si mesmas, para ocasionar prazer sexual (fetichismo, travestismo ou voyeurismo, exibicionismo e sadomasoquismo).Num sentido mais abrangente, "perversão" tem a conotação da totalidade do comportamento psicossexual que acompanha tais meios atípicos de obter-se prazer sexual". (1) Em seu artigo "Um modelo Conceptual de Perversão Masculina", Otto F. Kernberg afirma que: " (...) a classificação da patologia sexual, particularmente das perversões, não pode ser baseada exclusivamente no conteúdo do comportamento sexual per se, mas tem de incluir também a natureza da organização dominante de relações objetais. A desatenção ou subestimação, na definição psicanalítica clássica, das funções da conduta e da fantasia polimorfa dentro das interações sexuais normais também conduziu a uma subestimação da função dos aspectos perversos na idealização que é constituinte normal dos aspectos sexuais das relações amorosas Além disso, a presunção freudiana (1905) de ser a neurose o negativo da perversão fica aquém de nosso entendimento contemporâneo das complexas relações existentes entre organização de personalidade, "estrutura" perversa e patologia das relações objetais. Intimamente vinculada a estas questões acha-se a relação existente entre determinantes edipianos e pré-edipianos de perversão e o grau em que componentes edipianos e pré-edipianos ingressam em certas estruturas perversas".(2) Ou seja, é importante diferenciar o que seria uma atuação perversa de uma estrutura que sempre apresenta comportamentos perversos, principalmente quando fica claro a angústia diante da castração. É preciso diferenciar a idealização erótica que se faz do objeto que pertence ao ser amado da idealização do objeto "em vez de". Ou seja, o fetiche. Neste sentido penso ser mais importante avaliar e delimitar situações de comportamento frente à lei, à castração, ao narcisismo e à função especular. Para isto voltemos ao mito. Como vimos no mito de Medusa, em virtude da sua mágoa com os homens, esta se apropria do filho ( o que corresponderia a mãe fálica de Lacan), de tal forma que a introdução do pai, principalmente como representante da lei ( e por isto castrado, não no sentido prático, mas no sentido de limitado pela força da lei que traz dentro de si e que deveria transmitir ao filho, como interdito ao incesto), ou é insuficiente, ou o pai é simplesmente eliminado. O que observamos é que mesmo quando a introdução da figura paterna é realizada, geralmente é como referência pejorativa, (homem fraco, sem iniciativa etc.). Isto compromete o processo de identificação (prejudicando a auto imagem) pela insuficiência da função especular materna, uma vez que o menino também será alvo do ódio da mãe (e eu não chamaria de ambivalência), criando-se assim estados que podem ir desde uma imagem de si empobrecida, distorcida, até um fenômeno que eu chamo de Édipo duplo-cego. O Édipo duplo-cego existe, quando a função especular não se desenvolve, quando o olhar da Mãe-Medusa é apavorante, petrificante, impedindo a criança de construir sua imagem positiva no "espelho", levando-a, ao mesmo tempo, a sentir-se impedida de aproximar-se do pai, pelo aspecto pejorativo com que este é invalidado, ou até mesmo eliminado , como no caso de crianças "sem pai". Inúmeras variáveis vão construir esta identidade, em graus e nuances que podem ir desde uma estrutura neurótica sujeita à depressão (em que a pergunta que parece pairar no ar é "quem eu sou") até o duplo cego ( sei tudo o que eu não sou, mas não sei quem sou, ou ainda; sei quem eu quero ser). No primeiro momento, como já dissemos no artigo O Eleito e o Seduzido, a criança se instalaria no primeiro estágio do Édipo (segundo Lacan), cuja única função é agradar a mãe, com a esperança de que ela possa "espelhá-lo", ajudando-o a construir a sua imagem, sem intervenção da figura paterna. Muitos não conseguem sair deste estágio, e colocam-se a serviço desta mãe, sempre alimentando a esperança de "salvá-la "da sua infelicidade", provocada pelos homens, não conseguindo assim sair do estágio de seduzido. No segundo momento, vamos encontrar o menino tentando escapar desta Mãe-Medusa, percebendo, mesmo que distante, a figura paterna, mas ainda como um inimigo a quem ele precisa derrotar, não somente para ficar com a mãe, mas para satisfazê-la, pois assim, na sua fantasia ela poderá ser feliz. Ou seja, o pai é percebido, mas como um desconhecido contra o qual ele precisa lutar e sobreviver (o encontro Édipo-Laio?), e para, de alguma forma, fazer a mãe acreditar que ele (o menino) um dia será um homem bom. Neste caso, pelo menos o menino acredita na possibilidade de que haja um homem bom, mesmo que ele seja o único caso. Vamos encontrar mais adiante, na vida adulta, homens "bons" dedicados exclusivamente a "servir" à mulher que amam. Colocam o prazer desta mulher acima de qualquer satisfação de si mesmos, e por ela estão dispostos a fazer qualquer sacrifício. Geralmente transidos de sentimento de culpa, comprometidos em satisfazer mulheres insatisfeitas (e impossibilitadas de obter satisfação), com imagem de si deteriorada, são portadores de patologias que vão desde depressões até atuações perversas ou mesmo perversões; ou desencadeiam sintomas de disfunções sexuais que variam entre a anorgasmia (falta de desejo), a ejaculação precoce e até mesmo a impotência. Nos quadros de disfunções sexuais, principalmente a ejaculação precoce, encontramos homens bastantes comprometidos em "dar prazer", muito mais do que em compartilhar o prazer com o par sexual. Quase como um espectador, este homem acompanha cada detalhe da relação, sem conseguir mergulhar nela, criando assim níveis de ansiedade e insatisfação tão altos que muitas vezes por excesso de tensão nem sequer conseguem penetração. Eis o que eu chamo de "um homem a serviço da mulher". Em graus mais acentuados ele acompanha o ato quase como um voyeur , observando, analisando até que ejacula precocemente (muitas vezes até sem penetração) ou perde a ereção. Nas perversões, Euríale-Medusa apropria-se do filho, e praticamente elimina o pai ou o invalida de tal forma que o sentimento da criança é inteiramente transformado em ódio ao pai . Esta criança passa então a ser uma espécie de arma contra o pai, e poderá levar toda a sua vida tentando subverter a lei imposta pelo reconhecimento da superioridade deste e da organização do universo paterno, como sistema de leis que devem ser reconhecidas e cumpridas. Temos então o perverso. O perverso seria aquele que se empenha vigorosamente em destruir a lei, para depois reconhecer dolorosamente que ela é permanente. Como um grande tubo digestivo, seu processo é distorcer, fundir, misturar, modificar de tal forma que a origem das coisas não possa ser reconhecida. Todo o processo é de transformação, de confusão e de amálgama. A literatura está repleta de biografias nas quais o que transparece é a transformação: Calígula, Rimbaud, Sade. No cinema, filmes como Coração Satânico, A Ilha do Dr. Moreau entre outros, mostram o exercício do poder ilimitado, distorcendo, contorcendo até destruir o que seria reconhecido pela sua natureza. Para Chasseguet-Smirguel, "Uma sociedade em que os valores "paternos", genitais, estariam plenamente assegurados, perderia todos estes vestígios da luta entre a lei e o caos e levaria em conta a totalidade dos valores "maternos. O caos é então restaurado, no perverso, pela regressão sádica-anal, em que as essências dos seres e das coisas se dissolvem. A ruptura das "barreiras" e dos freios (Sade) provoca o gozo do perverso porque o introduz no universo da indiferenciação". (3) Neste universo indiferente, onde tudo pode ser feito ou refeito, para depois ser destruído, como se a essência precisasse ser destruída até um fim absoluto, numa luta mortal entre o eidos e a hibris, entre pulsões avassaladoras, o perverso atua como senhor absoluto de todas as coisas. Ainda segundo Chasseguet-Smirguel: "(...) o alvo perseguido é o de destruir a realidade, feita de diferenças para instaurar em seu lugar, o reino da analidade, onde todas as diferenças são abolidas. Trata-se de substituir Deus, para tornar-se o criador de uma nova realidade, para tornar-se o Criador". O mundo de Euríale é o mundo da inversão, dos valores das coisas, das pessoas, de tudo enfim que é não lei, não mundo, não realidade, não arte. O mundo de Euríale é o mundo do não- possível, como desafio às leis das possibilidades. Por isto, embora desperte atenção, inicialmente pelo que seria o seu aspecto surpreendente, é um mundo monótono e previsível. Em sua carta a Fliess (24 de janeiro de 1897) Freud diz que "os atos sexuais perversos são aliás sempre os mesmos, eles contêm uma significação e estão calcados em um modelo possível de ser encontrado" (5). Eu diria que eles são apenas anti-modelos até mesmo do convencional. Nada mais monótono do que ler Sade, ver um filme pornográfico, em que tudo parece previsível, até os atores parecem os mesmos. Falta argumento, as cenas se desenrolam repetidamente e de forma cansativa. Talvez a atração que causem esteja justamente no fato de serem o espelho do não-eu ou ainda uma espécie de mitologia do novo, do moderno, do inusitado; mitologia que agora encontramos nas chamadas "revoluções" artísticas, novas linguagens no teatro, na literatura, na música sem qualidade e muitas vezes pornográficas. Nas "novas drogas". Na cultura do novo pelo novo. Para Chasseguet- Smirguel parece existir uma relação entre a perversão e esta necessidade de cultuar "o novo", "o diferente", o exótico. "Os afetos despertados pela perversão podem igualmente nos ajudar a compreender porque alguns incensam o novo, sem se ocupar em saber se ele é bom, belo ou verdadeiro, querem instaurar "a desordem pela desordem" e a anomia, das quais surgirá magicamente uma nova realidade" (6) Não nos deteremos especificamente nos quadros de perversões. Apenas deixaremos aqui fundamentada a idéia de que o perverso é uma espécie de "mágico da realidade". Realidade que ele não suporta, e que sendo ainda portador da onipotência infantil, tenta modificar , como se usasse uma varinha mágica, criando um mundo indiferenciado, pois neste mundo ele e a mãe são unos, todos os poderes emanam dele, e a realidade é aquilo que ele produz. Toda a ética, todas as "leis", e até mesmo uma estética própria será elaborada para sustentar este mundo indiferenciado, mundo do qual a lei paterna foi excluída, onde o filho e a mãe se juntam para serem únicos, onde tudo pode ser reduzido a uma única forma , onde o escatológico predomina. Um mundo de Górgonas, de monstros e de ódio às diferenças individuais. (1) Laplanche –Pontalis Dicionário de Psicanálise vb "Perversão"pag.306 – Ed. (2) Kemberg, Otto F. "Um Modelo Conceptual de Perversão Masculina" in Psicologis Masculins, Fogel, Lane & Liebert, 1989 (3) Chasseguet-Smirguel - Ética e Estética da Perversão, pag.235 –Ed. (4) Chasseguet-Smirguel op. cit. Pag.215 (5) Freud, S. Correspondência a Fliess pag. Ed. (6) Freud,S. op. cit. pag 259 |