O ELEITO E O SEDUZIDO

Ainda sob a ótica do mito de Medusa, penso ser possível fazer considerações sob a forma como se opera na mãe e mais especialmente nesta mãe desencadeante de uma estrutura depressiva, (desta mãe que não pode ver seu filho , nem ser vista por ele, do ponto de vista simbólico), a escolha daquele que será o filho rejeitado.

Penso que Medusa (chamaremos assim a essa mãe) não se interessa muito por seus filhos deuses, aqueles com qualidades excepcionais, prefere mais os que podem ser semelhantes a ela no seu aspecto monstro. Mas o que acho mais importante é permitir-se pensar que de alguma forma ela pode reconhecê-los e selecioná-los logo ao nascer. Ou seria antes? ( quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha ?) . Escolhi a proposição que de alguma forma ela pode reconhecer no filho as qualidades divinas, e por isso quer apropriar-se delas , tentando encontrar um meio de colocar esse pequeno deus a seu serviço.

Medusa conhece Pégaso, ele esta dentro dela mesmo antes de nascer, só precisa libertar-se, ganhar os céus com suas asas maravilhosas. Ele é a poesia, em sua sensibilidade, é liberdade em sua ousadia de voar e, o pior, de alguma forma, ele é a inteligência, a mente brilhante que lhe relembra Minerva, sua terrível opositora. Pode-se dizer que os depressivos são quase sempre muito inteligentes. Afinal segundo Doin ( 1985), "eles aprendem a ler o rosto da mãe como os meteorologistas aprendem a ver o tempo". De certa forma pode-se dizer que mesmo não o vendo, e não sendo visto por ela, ela o reconhece e assim sendo também pode ser reconhecida por ele. É então que se dá o conflito. Medusa tenta seduzi-lo para colocá-lo a seu serviço. Mesmo carente, necessitando do espelho do olhar da mãe, Pégaso resiste, pois sabe que submeter-se é a escravidão e a monstruosidade, é perder a liberdade e a sensibilidade, é não poder mais voar e abdicar de uma vez por todas da sua inteligência. É tornar-se uma deus a serviço de um monstro. Monstro também.

Medusa, mais uma vez sente-se rejeitada, não pode compreender que esse ser divino não aceite ser completamente seu, deseja suas qualidades, pois como monstro ha muito esqueceu a condição de deusa. Deseja-o a qualquer custo.

Por sua vez, Pégaso, foge desse corpo monstruoso que o aprisiona, precisa nascer, realizar suas potencialidades. Mas como fugir daquela que o guarda dentro de si ?

Para Ragland-Sullivan (1986), "entre os 6 e os 18 meses de idade o infante se identifica com uma imagem corporal de self unificada, que mais ou menos corresponde a uma identificação com o corpo da mãe. A criança tambem se identifica, gradativamente com o objeto de desejo da mãe. Desejando ser tudo para ela, o filho ou filha quer ser o significante do desejo dela. (....) Mas uma vez que a criança não sabe qual é realmente o desejo da mãe, o primeiro significado para a criança, e o único que é real e concreto, é o seu desejo de agradar e fundir-se com a mãe. Por isso, tanto os meninos quanto as meninas desistem bem depressa de ser, por identificação, o objeto que a mãe deseja, assim que percebem que ela permanece insatisfeita, apesar dos esforços que fizeram no sentido de ser o que ela quer".

Ora, fundir-se com Medusa é ser monstro e escravo de sua vontade, vontade que nunca é satisfeita, (pois este parece ser o destino de Medusa: a insatisfação e a morte), é errar pela vida cumprindo um destino cruel. Pégaso parece reconhecer isso e foge.

Para Winnicott (1965), o " ‘Eu sou’ - a unificação dos núcleos do ego - só pode ter lugar no meio propiciado pela mãe suficientemente boa (...) porque ela tem a criança em sua mente como uma pessoa inteira". Diz ainda Winnicott que "o precursor do espelho é o olhar da mãe".

Para Doin, o que o bebê vê quando ele olha para o rosto da mãe é ele mesmo refletido nesse olhar. Se essa mãe não puder ou não quiser refleti-lo, instala-se o caos. Ela pode tambem refletir um bebê falecido, ou mesmo seu estado de espírito, ou suas defesas. E assim esta relação mãe - bebê, não se faz, pois o bebe que não se vê no olhar da mãe ( e por sua vez não a reflete em sua maternidade), desiste de olhar, a não ser para "prever o tempo" e se defender. Penso que vem daí a capacidade que têm os depressivos de perceber e analisar detalhes quase obsessivamente.

A partir daí a capacidade criativa se atrofia e embora crie (até por defesa) uma percepção detalhada do mundo externo, não consegue se perceber como realmente é (falta-lhe espelho), e por sua vez passa a não confiar nas próprias percepções .

Dois caminhos, então, podem ser traçados:

- Pégaso aceita a sedução e transforma-se no Centauro ( monstro como a mãe); passa a ser o filho seduzido, entregue à loucura de sua mãe monstro, tentando sempre satisfazê-la . Não sabe que ela lhe entrega uma tarefa impossível de ser cumprida, não por incapacidade dele para isto, mas pela insaciabilidade dela que o impede de cumpri-la. Em sua busca constante e nesta dependência da mãe, pouco lhe resta para ser uma pessoa, um ser humano integrado.

- No outro caminho, Pégaso descobre rapidamente que a mãe não lhe serve de espelho, que ela não pode oferecer-lhe de volta uma imagem para que ele possa construir-se como pessoa. Diz Doin (1985), "a percepção toma o lugar da apercepção (percepção de si mesmo), a percepção toma o lugar do que poderia ter sido o começo duma troca significativa com o mundo, dum processo em duas direções em que o auto - enriquecimento se alterna com a descoberta de significado do mundo das coisas vistas".

Enlouquecido, sem poder de escolha, dependente de sua mãe monstruosa, resta a Pégaso a culpa de não aceitar a sedução e o destino de passar a vida orbitando ao redor de Medusa, rebelando-se contra sua tirania de vez em quando, e á medida em que se rebela, deprime-se. Torna-se então a criança "boa e obediente". Aprende a falar baixo, a não ser incomodo, a movimentar-se apenas o suficiente, desiste do barulho e da sonoridade da alegria. Pégaso passa a ser um criança solitária, triste, vigilante e extremamente racional.

É bastante comum encontrar crianças quietas, dedicadas aos livros, com poucos movimentos (as mães - Medusa não suportam crianças barulhentas, desobedientes e hipercinéticas. Seu modelo de criança é o que há de mais próximo dos bebês de plástico - apenas um brinquedo), torna-se quase imperceptível . Muitas dessas mães contam com orgulho como suas crianças são "educadas", asseadas, quietas e silenciosas; não dão trabalho. E deveriam acrescentar: infelizes.

Conheci certa vez uma mãe-Medusa que obrigava seu filho nas festinhas infantis a ficar sempre com as mãos para traz e não olhar para a mesa de doces, pois não era educado parecer que os queria, poderia ser interpretado como fome, e sentir fome em presença dos outro não era bonito.

Outra mãe-Medusa tinha uma bela criança inteligente e faladora. Fiquei estarrecida quando a ouvi dizer ao seu menino que não falasse muito principalmente sobre particularidades familiares pois se não ela poria um ovo cozido quente em sua boca. Se o fez alguma vez eu não sei, mas pelo seu olhar...

Beliscões furtivos, pequenos tapas, ameaças implícitas, chantagens terríveis, fazem parte da vida "afetiva" destas pobres crianças. Proibidas de movimentarem-se, sorrir, gesticular ou gritar, enfim de despenderem a energia que precisam para crescer como crianças felizes, tornam-se imóveis, quase inertes, distímicas. Não viria daí a imobilidade tão comum nas crises depressivas? O medo de desobedecer que se apodera do depressivo justamente quando ele começa a fazer planos para cuidar de si ou fazer algo que lhe seja favorável talvez se relacione com a idéia de "desobediência civil". Lembro-me de um cliente, cuja mãe histérica, sempre que contrariada, arrumava-se muito bem, pintava o rosto, colocava jóias e dizia que iria se matar no centro da cidade ou num Shopping Center, e que a culpa era dele por ser um menino tão mau. Contou-me que passava horas angustiado, na calçada da casa esperando a notícia da morte da mãe. Que naturalmente, nunca aconteceu.

Inúmeros exemplos podem ser citados, pois parece que existem muito mais mulheres dispostas a serem Medusa do que a desempenhar o papel de Danae. Muito sofrimento existe nessas infâncias perdidas pelas mães cruéis. Muita culpa é colocada onde não deveria estar. No entanto parece tão simples reconhecer a crueldade dessa mãe. Outro engano. A cultura judaico- cristã em que vivemos não admite a possibilidade de existir um mãe má.. O que apenas reforça a culpa e a dificuldade de reconhecimento da realidade. Reconhecer uma mãe Medusa é a maior tarefa que se pode propor a alguém. Desempenhar o papel de Perseu (reconhecer e matar Medusa) é tarefa para se realizar apenas com a ajuda de deuses, como no mito. É preciso encontrar as sandálias aladas e a espada de Hermes e o escudo de Minerva. Simbolicamente, encontrar um Poseidon que os salve, um Polidectes que os ame incondicionalmente e alguém, quem sabe um psicoterapêuta que lhe arme como Minerva. Em nossa Cultura não é fácil, pois reconhecer Medusa em um meio que lhe é favorável, é tarefa que implica em culpa e depressão. Falo em reconhecer, apenas confirmar dentro de si mesmo essa mãe cruel, tarefa difícil de ser cumprida, pois culturalmente a mãe cruel é muito confundida com a mãe zelosa, a que cuida do seu bebe e lhe serve de espelho; imaginar matá-la, (ou seja livrar-se do poder que ela exerce) impedi-la de destruir seu filho ( ou filha)é crime hediondo, mesmo que perpetrado na fantasia, no processo terapêutico. Daí a sensação que muitos dos meus clientes tem de recair logo após terem começado a melhorar e traçar planos para a felicidade. Sei que podem conseguir, mas eles tentarão muitas vezes até que não se sintam tão culpados por cuidarem de si mesmos.

Assim sem saída, essas pobres crianças "de mãos para traz" , com medo de olhar e desejar algo, inertes, silenciosas e tímidas, crescem sem uma imagem positiva de si mesmo, sem se reconhecerem mesmo quando são reconhecidos pelo outro como pessoas capazes, crescem e se tornam adultos tristes ( muitos não conseguem sequer compreender o sentido da alegria, de uma festa, de como se divertir), deprimidos, isolados, funcionando abaixo de suas capacidades e recebendo bem menos do que merecem.

Penso que os depressivos são os eleitos que se recusaram a ser seduzidos por Medusa. Uma espécie de "em cima do muro", meio termo . No entanto, a culpa não os permite reconhecer a crueldade da mãe, e por conta disto, ficam ali, orbitando ao seu redor, alimentando a fantasia de que um dia serão amados (não seduzidos), que de alguma forma ela vai poder reconhece-los se fizerem algo ( que algo?). Penso que os depressivos são pessoas em disponibilidade. São geralmente os bonzinhos da estória. Vivem fazendo tudo para todo mundo. Passam a vida cuidando dos outros para não cuidarem de si mesmos, pois entendem que isto é egoísmo e aprenderam cedo que egoísmo é prenúncio de maldade. Enfim, nem saem e nem ficam completamente na situação. Criam assim o sistema que poderia ser definido como: desempenho >reconhecimento>frustração do reconhecimento>culpa> depressão> fantasia do desempenho.

Falemos um pouco dos seduzidos. Os filhos seduzidos de Medusa podem ser comparados a massas amorfas. Sem pensamentos próprios, sem sentimentos particulares, sem senso de privacidade, sem autonomia. Não fosse a sua infelicidade e atonia poderia ser comparado a um feto. Preso ao cordão que o alimenta, participam com a mãe da sua monstruosidade e de suas idéias. Pérfidos, maldosos, incapazes de elaborações próprias sobre mundo, associam-se a Medusa, Ésteno e Euríale: simbolicamente as perversões sociais, sexuais e espirituais, ou melhor as sociopatias, a sexualidade desenfreada e pervertida e as psicopatias, bem como o uso de drogas, alcoolismo e suicídios. Eis Medusa e suas irmãs. Entregar - se a uma é receber todas. Ficar com Medusa é a solidão, a loucura e a auto - destruição.

Podemos reconhecer Medusa nas mães que conduzem seus filhos loucos de médico em médico, com a desculpa de que querem o melhor para eles, mas que nós que os tratamos sabemos que quando começam a melhorar elas mudam de terapeuta , trocam os remédios por conta própria, quando não esquecem completamente o tratamento. Ela tambem pode ser vista na mãe do alcoólatra, que ora briga e reclama, ora vai apanha-lo nas sarjetas cuida-o, alimenta-o e briga com a família por causa dele. Podemos encontra-las nas enormes filas de presídios em dias de visita. Aí nestas situações mostram suas asas de ouro, são mães abnegadas que visitam seus filhos criminosos, conduzem enormes sacolas de alimentos, esperam horas na fila, submetem-se a vergonha das revistas muitas vezes humilhantes e desrespeitosas para a condição humana, tudo é possível para essas mães- deusas, agora que provaram ( ou transferiram?) a monstruosidade para os filhos assumem de certa forma a condição de sofredoras que carregam filhos monstros.

Outros seduzidos, se não enlouquecem, distante da imagem de si, desenvolvem o que chamamos falsos-selfs ( ou falsos-eu) e incapazes de reconhecer e amar uma mulher incondicionalmente, adquirem o que eu chamo de "destino da lua"- mesmo que a todos encante, não pode ser de ninguém. Tornam-se homens misóginos, que passam sua vida tentando destruir mulheres, de várias formas e gráus, desde o enganar e divertir-se com elas, até o espancar, mutilar e por fim mata-las. Vivem apenas para criar e destruir as ilusões femininas. As mulheres permanecem crianças e crescem externamente odiando os homens, criando dentro de si a impossibilidade para o amor humano. Outros tornam-se eunucos simbólicos. Alijam de si o instinto sexual e com ele pensam ter destruído o desejo, mas este os perseguirá (não mais como ente saudável de sua personalidade, mas como Ésteno que sempre acompanha Medusa. Este desejo será a causa da sua infelicidade, que possivelmente se disfarçará em desejo de servir a humanidade por este ou aquele motivo religioso, criando muitas vezes claustros que os distanciam cada vez mais da problemática humana. Eunucos de Deus. Mas incapazes de servir a um deus ou a um ser humano.

Medusa, o elixir da vida e o veneno da morte. Aceitar ser o seduzido é perder-se para sempre de si mesmo. Ser o eleito é carregar a culpa e a depressão, mas estas tem tratamento e cura. É preciso somente coragem para enfrentar o processo terapêutico, não que seja uma trajetória impossível, é apenas sofrida. E digo apenas porque o que estas pessoas não sabem é que ao resolver-se pela terapia elas podem ser consideradas sobreviventes, e que todo o sofrimento terapêutico é muitas vezes menor do que o vivido com Medusa. Ou seja, o pior já passou. Agora é caminhar para derrubar os muros que os conduzirão a liberdade, é reconhecer-se Pégaso, abrir as asas e voar.

Recife, 16 de julho de 1997

Marise de Souza Morais e Silva Santos


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