OLHAR DA MÃE, A IMAGEM DE SI E OUTROS SENTIMENTOS
Anteriormente
falávamos da distorção que parece acontecer entre a imagem real e a imagem
percebida nos casos que citamos anteriormente. Para melhor compreensão, deste
aspecto, vamos esclarecer o processo de formação do que chamamos de imagem de
si, que tem como base a relação mãe - filho.
Importantes
trabalhos como os de Jacques Lacan (1949) Le Stade du Miroir; O Papel de Espelho
da Mãe e da Família, no Desenvolvimento Infantil de Winnicott (1967), entre
outros, mostra-nos a importância da mãe e sua relação com seu filho como o
ponto básico para que se cumpra o que Doin (1985) define como função
especular, que veremos adiante.
Para
Winnicott (1967), “O precursor do espelho é o rosto da mãe”. Penso que
poderíamos dizer que o que uma criança verá sempre no espelho é o que foi
visto no rosto da mãe. E o que ela vê quando se vê? Recorro novamente ao
autor supracitado.
“O
verdadeiro self provém da vitalidade dos tecidos corporais e da atividade das
funções do corpo, inclusive a ação do coração e a respiração. Ele está
intimamente ligado à idéia de processo primário (1965:148) “Mas a conquista
do ‘Eu sou - a unificação dos núcleos do Ego’-só pode ter lugar no
meio proporcionado pela mãe suficientemente boa (...) porque ‘ela tem a criança
em sua mente , como uma pessoa inteira’”(citado por Doin, em Melo
Filho(1989)).
Mas o
que é uma mãe suficientemente boa? Se perguntarmos à maioria das pessoas que
conhecemos, todas, ou pelo menos a maior parte referir-se-á a si mesmo ou
à sua própria mãe, sem maiores explicações, ou dirá que uma boa mãe faz
isto ou aquilo, enfim geralmente ligado a tarefa de cuidar da criança em termos
de desempenho. Eu chamo isto de mãe - tarefeira. Este tipo de mãe me parece
alguém bastante vaidoso de manter seu filho limpo, arrumado, bem vestido
e bem alimentado, “para que ninguém possa falar mal dela como mãe”;
mas geralmente não fala do prazer em fazer estas coisas para o filho, como
forma de carinho e amor.
Mas porque
“suficientemente boa”? A condição de suficiência implica em ser nem
demais nem de menos. Apenas suficiente. E penso que para ser suficientemente
boa, é preciso estar disponível, estar atenta para atender o seu bebê naquilo
que ele requer ser atendido e não naquilo que a mãe pensa que ele requer.
Penso que cada bebê traz sua própria fórmula do que precisa para crescer e
ser feliz.
Em seu
trabalho, Doin (1985) diz: “O que é que o bebê vê, quando olha para o rosto
da mãe? Sugiro que normalmente o que o bebê vê é ele mesmo (destaque meu).
Em outras palavras, a mãe está olhando para o bebê e aquilo com que ela fica
parecida( a cara que ela faz) depende do que ela está vendo nele.(...) Posso
chegar ao que estou pretendendo, indo direto para o caso do bebê cuja mãe
reflete seu próprio estado de ânimo, ou pior ainda, a rigidez de suas próprias
defesas. (...) Muitos bebês têm , de fato, uma longa experiência de não
receber de volta o que estão dando. Olham e não se vêm a si mesmos (destaques
meus). Aí há conseqüências. Primeiro, a capacidade criativa deles começa a
se atrofiar (...) Eles procuram em seu redor outras maneiras de resgatar do meio
alguma coisa que é deles (...) Num segundo tempo o bebê fica preso `a idéia
de que quando olha o que ele vê é o rosto da mãe. A face da mãe não é então
espelho. (destaques meus). Assim a percepção toma o lugar da apercepção
(percepção de si mesmo)a percepção toma o lugar do que poderia ter sido o
começo duma troca significativa com o mundo, dum processo em duas direções em
que o auto enriquecimento se alterna com a descoberta de significado no mundo
das coisas vistas.
Certa vez
uma cliente me disse que tinha certeza que nunca conseguiu se ver, e o que era
pior, quando ainda hoje olhava para os olhos da sua mãe, eles não lhe diziam
nada a seu respeito. Disse-me que jamais conseguiu captar no olhar da mãe um mínimo
sequer de admiração ou de carinho, enfim, disse-me “nunca havia nada”.
Esta mesma pessoa, tambem falou-me que tinha o hábito de revistar os armários
da mãe, para “descobrir do que ela gostava”, como se tivesse traçando uma
espécie de perfil. Disse-me que não sabia bem o que procurava, apenas sabia
que devia procurar ver, ver todas as coisas. Diz Doin: “Noto que estou
vinculando a apercepção (percepção de si mesmo) com percepção, ao postular
(no indivíduo) um processo histórico que está na dependência de ser visto:
Quando olho, eu sou visto, logo existo. Posso agora me permitir olhar e ver.”.
Esta mesma
cliente me disse que às vezes tem a sensação de que gostaria de ser
transparente, disse que acha que por nunca ver nada no olhar da mãe, tem sempre
que perguntar aos outros sobre as coisas e principalmente sobre si mesmo.
Disse-me que seu espelho havia falhado e que agora achava que vivia correndo atrás
de outros espelhos, embora soubesse das coisas, precisava apenas confirma-las.
“Não seria horrível se a criança olhasse no espelho e não visse nada?”
Pergunta Doin. Tenho observado que sim.
Uma característica
bastante importante no perfil depressivo é a idéia de ser visto e de ver. Ser
visto para eles é terrível, é uma grande fantasia persecutória. Dizem eles
geralmente. Se me virem vão saber quem eu sou (pois se sentem torpes e acham
que um dia serão descobertos). Quanto ao ver como o próprio Doin diz, “eles
procuram em seu redor outras maneiras de resgatar do meio alguma coisa que é
deles (...) Isto acarreta uma ameaça de caos e o bebê aprontará a retirada ou
não mais olhará, exceto para o ato de perceber como defesa”.
Perceber
como defesa... Tenho observado que estas pessoas aprenderam a fazer isto muito
bem. Geralmente discretos, são muito atentos. Com alto gráu de perfeccionismo,
os depressivos aprendem rapidamente e desde cedo a procurar defeitos nas coisas
pessoas ou situações. A sensação que dá é que vigiam o mundo. Sentem-se
responsáveis por tudo, principalmente em situações onde possam exercer a
liderança. Qualquer falha é imperdoável. Neles ou nos outros.
Alguns de
meus clientes depressivos relatam o quanto se decepcionam com as pessoas. Não
podem suportar a falha humana. Muitos dizem não compreender como alguém pode
fazer isto ou aquilo se eles não fazem. Gosto muito de perguntar se eles
assaltam bancos ou roubam carros. Digo-lhes então que embora eles não o façam,
devem trancar seus carros e ter cuidado quando vão aos bancos, pois
independente da sua vontade, existem pessoas que fazem estas coisas e que não há
coisa pior do que criar expectativas, principalmente tão irreais.
Com essa
colocação chamo sua atenção para a dicotomia entre o que eles sentem e o que
sabem a respeito do mundo e das coisas. Percebo como se houvesse uma lacuna, uma
distorção nessa imagem “espelhada” que fazem do mundo, que quando se choca
com a realidade cria mágoas profundas ou a sensação de incompetência ou de
ingenuidade para perceber a vida. É como se a realidade agisse como uma pedra
que quebra o enorme espelho que funciona como cenário para a realidade que
percebem, estilhaçando suas melhores idéias e percepções. Eu chamo isso de
ingenuidade patológica do depressivo.
Quando
utilizo o termo “depressivo” não falo das depressões reativas, mas de um
modo de ser (ou de estar sendo, ou ter passado a maior parte da vida sendo), mas
de uma estrutura (no sentido do conceito em Lévi-Strauss). De uma configuração
que se cria a partir de relações que vão “moldando” essa forma de exercer
a vida. Sim, porque não me parece uma forma de ser, mas de exercer e se portar
como estratégia de sobrevivência. Tanto que com o processo terapêutico,
muitos relatam uma nova maneira de existir onde os medos diminuem, o contato
social aumenta e mais, a alegria e a criatividade começam a despertar.
Ás vezes
penso que a função do psicanalista é descobrir esses falsos espelhos que
precisam ser estilhaçados, desfazendo as falsas imagens que aprisionaram o
cliente (não gosto do termo paciente pois esse processo dinâmico é produto do
movimento que faz o cliente no processo de “estilhaçar os espelhos” e
construir outro, fiel e original, a partir do olhar do analista – olhar que se
processa mesmo quando não olha, pois se opera na fantasia do cliente).
Movimento é
outra palavra chave para esse modo de estruturar a vida. A maior parte dos
clientes que atendi tem dificuldades com movimento. Poucos conseguem desenvolver
uma atividade física constante. Quase nenhum pode ser considerado um bom
praticante de esportes. Mesmo os que sabem que o esporte melhora bastante o
humor e a energia no momento das crises depressivas, não conseguem desenvolver
um programa esportivo. Outros até compram aparelhos como bicicletas ergométricas
ou esteiras (quase sempre muito caras), mas estas acabam relegadas á condição
de “cabides”.
Muitos
relatam que foram crianças “comportadas” que viveram em casas muito bem
arrumadas onde não havia muitas possibilidades de brincar a não ser no quarto
ou fora de casa. Outros relatam que nem podiam entrar em salas que eram sempre
deixadas para as visitas e terminantemente proibidas para as crianças. Uma
cliente me relatou que adorava ver televisão numa sala onde havia um tapete
macio e um grande aparelho, mas que tinha de prometer tirar os sapatos, sentar
no tapete e não nos sofás e o pior, na hora do lanche tinha que ir comer em
outro lugar, na cozinha. É claro que muitas vezes teve de suportar passar a
hora do lanche, pois a diversão estava boa.
A televisão
é uma grande aliada na manutenção desse estado de paralisia nas crianças que
desenvolvem esse tipo de estrutura. Muitos adultos para não serem incomodados
ou “perderem tempo” com as exigências e principalmente com a movimentação
constante, tão natural nas crianças saudáveis, utilizam esse recurso como
forma de manter o controle. Conheci uma mãe que gravava horas de programas
infantis e colocava seu filhinho em frente ao vídeo dando-lhe pipocas e sanduíches
“porque ele gostava muito”. Hoje é um lindo menino de olhos azuis
esvaziados por um estado psicótico manifesto.
Uma outra
característica desses “filhos de Medusa” é a constante necessidade de
comprar. Alguns por vaidade (principalmente os que possuem bons recursos
financeiros), outros se satisfazem em comprar pequenos objetos nessas lojas
especializadas em mercadorias que custam no máximo um dólar. Uns me mostraram
fotos em ambientes de suas casas que mostram montes e montes de bibelôs, coleções,
objetos repetidos, um verdadeiro amontoado de coisas, mesmo quando os ambientes
são limpos e arrumados. Há sempre uma sensação de excesso. Conheci um que
comprava ferramentas. Possuía serras elétricas de diversos tipos, chaves de
fenda, furadeiras e chaves inglesas das mais diversas. Até mesmo um mini
compressor de uma marca famosa ele possuía duas semanas depois que foi lançado
na tv. Eles são sempre os melhores clientes dessas empresas que vendem de tudo,
inclusive kits com duzentas ou trezentas peças que servem para isto ou aquilo.
Até aí tudo bem, se não fosse o fato de relatarem que não conseguirem
realizar alguma tarefa constante com esses objetos. Mas, a maior parte relatou
que comprava porque quando precisasse não faltaria nem precisaria pedir para
ninguém. Mas esse é outro ponto. O medo da falta, de precisar de algo ou de
alguém. Uma constante luta pela auto-suficiência que muitas vezes os isola do
mundo.
Tenho uma
paciente que é pessoa de muitos recursos e que possui negócios no
mercado financeiro, ela própria uma “boa compradora”, relatou-me que
os cartões de crédito e as financeiras exultam com essa capacidade de
endividamento que cada vez mais vem crescendo, principalmente nas chamadas
classes média- baixa e baixa. É preciso ter! Principalmente para não ser
apanhado sem. Para os cartões e bancos, é ótimo, pois sempre chega a hora de
pagar e os juros e taxas multiplicam milhares de vezes os valores.
É comum
encontra-los sempre endividados, com o “nome sujo” (expressão popular que
se usa aqui no Brasil para indicar uma pessoa que está inscrita em cadastros de
serviços de proteção ao crédito). Estar sujo, ser sujo, sentir-se sujo ou
torpe parece ser sempre a sensação que inconscientemente buscam essas pessoas.
E por quê? Duas razões que me parecem complementares embora opostas poderiam
justificar essa busca. Essa criança cresce sentindo-se insuficiente, pois
aprendeu muito cedo que é incômoda, ruim ou mesmo um estorvo para essa mãe e
para agradá-la é como se fizesse o possível para comprovar isto, sendo
realmente o estorvo que ela espera que seja e assim não desmentir a mãe de
forma pública. A segunda razão que me parece complementar é que como
cresceram observadores (por sobrevivência) e extremamente detalhistas de alguma
forma “sabem” que “há algo de podre” nesse reino da mãe. Que ela não
é tão perfeita quanto faz crer e ele não é tão vil que mereça seu
desprezo. Mas, tudo ao seu redor funciona como se fosse uma ópera ou peça
de teatro, onde os atores estão todos em seus lugares e a cada ária de um
segue-se a do outro, e um sempre espera pela “deixa” para que a sua parte
possa ser dita.Nesse palco a mãe organiza os irmãos que como Édipos
enceguecidos não podem vê-la como é e a aplaudem, confirmando assim a
hegemonia da mãe. Por outro lado, o pai (quando não foi descartado por essas
ou aquelas razões), apóia sua esposa que conta com a “estatística” dos
outros filhos, que confirmam junto a este a quase santificação da mãe (não
esqueçamos que Medusa tem asas de ouro). E finalmente, o trabalho de isolamento
entre os filhos, não permite que haja intimidade entre os irmãos a ponto de
conversarem e juntarem percepções para formar um quadro claro da situação.
Todo esse conjunto opera na condição de isolar e garantir que o outro é
o louco, o marginal, que faz a mãe sofrer, o malcriado ou outras coisas piores.
Dá-se então
o desfecho. Muitos desistem de tentar e entregam-se a depressão profunda que os
levará ao suicídio, pois cada vez mais sua visão se embota (pois a depressão
é uma excelente feiticeira que distorce as imagens da realidade, embora não a
negue. De tal forma que tudo é percebido de forma equivocada. A dor é insuportável,
mas não precisa ser estancada com a extinção da vida. Existem saídas). Este
ato final confirmará os dois pólos, o maniqueísmo de Medusa: a mãe perfeita
e sacrificada; o filho mau e enlouquecido.
Um outro
desfecho não menos trágico é deixar-se vencer pela idéia da marginalidade e
da maldade. Muitos se entregam às drogas, ao crime e quando não morrem de
forma violenta passam seus dias em estabelecimentos que nada tem de
correcionais, cumprindo penas e esperando que mais uma vez a mãe cumpra o seu
papel de “sofredora” e vá visitá-lo levando enormes cestas de “mimos”
para sua sobrevivência. Mais uma vez os dois pólos se definem. O menino mau e
mãe santa, que tudo perdoa.
Mas há
sempre a terceira margem do rio, aquela que poucos conseguem ver. A procura de
psicanalista, de um espelho que possa refletir sem falar (como fazem os espelhos
bons e cristalinos) de forma fiel essa imagem que aos poucos será retocada ou
alcançará sua “alta definição”, depois que se estilhaçarem os falsos
espelhos que foram construídos em seu inconsciente. Enquanto isso não
acontece, nós, os espelhos, esperamos. Enquanto esperamos encaminhamos para um
psiquiatra que nos dê um bom suporte nas crises depressivas dos nossos
clientes. E, esperamos que esse processo de santificação da mãe e das famílias
patológicas seja mais desmascarado, ajudando a construir uma sociedade mais
justa, mais sincera e menos patológica para as crianças.
Marise de Souza Morais e Silva Santos
20 de abril de 2006